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Peixe Betta
Os lábios anestesiados pelo sono mal podem sentir o pouso delicado do beijo dele. Ela fecha os olhos e num fio de voz pede que ele cante uma canção de ninar. Ele não conhece nenhuma, mas acaba por inventar uma melodia suave até que ela durma. Antes de sair, retira as pantufas dela. Pele gelada de porcelana como aquelas bonecas que Violeta coleciona, pensa ele enquanto toca admirado seus pés pequeninos, macios... Não consegue evitar a imagem da mulher lixando a joanete na banheira - coisa muito asquerosa. Escorrega as mãos e o pensamento pelas suas canelas finas e espera que ela resmungue, mas seu corpo permanece inerte. Ronca como um gatinho, a boca entreaberta. Os cachinhos dourados cobrem-lhe a fronte e uma réstia de luz vinda da janela - o luar intruso – incide exatamente sobre o seu rosto ao vencer a persiana semi-cerrada conferindo-lhe um ar angelical. Ainda assim seu olhar escapa, em um movimento nada involuntário, para o magnífico encontro da alvura das suas coxas e do término da sua camisola azul bebê – um rio de margens flexíveis de algodão. O dedo indicador em riste - dissociado do resto do corpo - possibilita o vislumbre do pequeno triângulo rosado com bolinhas brancas. As fraldas, uma nuvem passageira. Violeta entra caceteando numa cena de algum filme em preto e branco de 1939: “Você nunca troca a menina.” O cheiro é adocicado, lembrança mais forte apesar de longínqua da tenra infância na beira do lago com uma menina chamada Jasmim que usava tranças e subia em árvores. A palma da mão inteira sobre sua coxa quase vencendo o limite da virilha. Ela vira a cabeça para o lado. Ele hesita. Se ela estivesse morta como as bonecas de Violeta... Sente que os pêlos dela estão eriçados. Ele treme. Coloca a outra mão na perna dela. Ela murmura algo incompreensível e volta a se calar. Ele aguarda três minutos submerso – o desejo retesado no fôlego. Abre vagarosamente suas pernas. “Estou com frio.” Ele lhe diz que vai passar.
Escrito por Clotilde e cia às 06h05
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Sobre Nomes
Gosto de sair sozinha com freqüência. Ir ao bar de sempre. Encontrar os mesmos desconhecidos. Uma cerveja no balcão – o barman de cavanhaque já sabe a marca. Pelo menos hoje não choveu. Ela desce rapidamente pela garganta quando não tem assunto. Na telinha, anões encapuzados enfrentam-se na “ultimate fight”. Parece promissor. Do meu lado direito, um casal beijinho-beijinho. Técnica do aspirador de pó. Para o cigarro é um pulo. O Mau diz que eu tenho que esperar alguém entrar para poder fumar. Faço manha. Ele diz que é só porque sou eu. Puta mentira. Encontro a.... não lembro mais o nome. Ela está vestida de oncinha e óculos rayban (porque alguém usa óculos escuros à noite?). Pergunta se eu sou atriz e eu respondo – “entre outras coisas”. Está doidona e com uma catota bem nojenta no canto do nariz que eu evito olhar. Diz – “estudei com o Grotowski por dois anos quantos anos você tem mesmo não importa faz tanto tempo já muito sofrimento depois disso comecei um grupo aqui em São Paulo mas cansei quero fazer algo original e interligar mídias diferentes, entende? Parei com tudo agora só elaborando um projeto deixando assentar cuidando do meu corpo da minha saúde fiz uma cirurgia delicada - silicone - acho que você devia é tão retinha parece uma tábua dá um up total.” Meu cigarro virou cinza. Entrei olhando discretamente para os meus seios. Não dão uma espanhola. O moço dos olhos de lince me fita. É a segunda vez. Está acompanhado de uma morena bonita. Deve ter ido ao banheiro. Típico. Ele tem uma tatuagem no braço direito. É japonesa. Deve significar alguma idiotice como: “esperança”, “coragem” ou “fé”. Argh! Odeio tatuagens em Japonês... mas bem que posso imaginar aquelas mãos nas minhas coxas. Ela volta e ele desvia o olhar. Bem previsível. Como os livros que ele deve ler. Viro a cerveja quente com cara de nojinho. Desprezada pelo cérebro de minhoca. O barman traz uma segunda cerveja. Eu tomo um gole e sinto que deveria ter feito xixi há dez minutos atrás. Estendo um tapete vermelho até o banheiro e flutuo. Aliás, eu poderia até dar um workshop: como pular corda com seu salto agulha – uma lição de elegância. A verdade é que não sou assim tão fina, mas meu andar é impecável – mamãe ensinou. A fila do banheiro é enorme e as pessoas estão entrando em duplinhas como na pré-escola. No meu caso, é mesmo a bexiga dilatada. Enquanto isso, brinco de triangular o olhar com o mocinho de cabelo arrepiado bem atrás de mim. Branquelinho, magrelinho e molequinho – nada nada meu tipo; mas como passa-tempo para esquecer do xixi, está valendo. Ouvimos risadinhas em uma das cabines. O mocinho diz – “vai longe”. As minhas pernas se contraem e agora eu realmente me sinto com seis anos e com medo de mijar nas calças. Onde eu coloquei a bolsa? Putz... será que eu a deixei no balcão? O pior é que eu sou a próxima... A porta abre: saem duas fadas barbudas. Eu já entro de zíper aberto - tudo muito rápido. Antes de sair, checo se algum descuidado deixou uma carreirinha dentro do porta papel higiênico para alguma pessoa da fila. Não foi dessa vez. Volto pro balcão e procuro em vão pela minha bolsa. Márcio – o garçom – aparece e diz que a guardou para mim. Na telinha agora passa “A Malvada” com a Bette Davis - a programação é eclética. Eu dou aquele risadinha de canto de boca. A moça-estrábica-que-está-sempre-aqui já me viu e provavelmente vem falar comigo. Da última vez ela discorreu meia-hora sobre a lei anti-fumo. É uma chata. Saída dos fundos. Faço um sinal com a cabeça para o Márcio me acompanhar. Ele tira o bonezinho ridículo que é obrigado a usar. Damos dois tiros no escuro. Começo a contar que na quinta-feira arrumei uma mega confusão com uma mulher que queria passar na minha frente na fila do caixa... Ele me interrompe. Diz que eu já lhe contei essa estória e que tem que voltar para a função. Eu retorno – sempre flutuando. Caminho limpo, a estrábica não está lá. Um homem com pinta de charmoso pede uma cerveja no balcão e me lança uma carta. Nunca vi o sujeito. Logo entendo que ele está acompanhado de outros dois amigos. Tem o olhar firme, é sofisticado, não é viado e tem uma rodela dourada de alguns quilates no dedo anelar da mão esquerda - o que não é qualquer detalhe. Ando muito preguiçosa. O barman me oferece um drink de pimenta da parte do moço. Eu aceito e em um-dois-três segundos lá está ele fazendo a enquete básica. Eu me apresento: Rita, enfermeira, trabalho no Sírio Libanês. Ele diz que eu sou muito bonita, deveria ser modelo ou atriz. Eu dou uma risada bem forçada. Ele se apresenta: Gustavo, médico cardiologista, tem um consultório e trabalha também no Sírio Libanês às terças-feiras.. que coincidência! Eu digo – “que bom”. E penso – “fudeu”. Peço licença para fumar um cigarro lá fora e fico aliviada que ele não se ofereça para ir junto. Explico para o Mau que meu maço acabou e que vou comprar mais um no boteco ao lado. Subo a rua rapidamente até dobrar a esquina. Pego um táxi e ganho logo um outro nome. Um nome que não vai te ligar, não vai ao seu casamento, nem ao seu aniversário, nem vai estar lá quando você precisar. Gosta de vagar sozinho, e só não o faz, porque existe: é registrado – mãe, pai, certidões, emprego, celular, casa. Para virar personagem, precisa de outro nome e, agora, de um outro bar.
Escrito por Clotilde e cia às 18h11
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Pisca-pisca
Quando o dono da banca viu o pisca-pisca. Tem cara de estória nonsense. Você diria até que a escritora dela tomou um doce. Não é verdade, já lhes adianto. Pensemos que é um sábado com cara de domingo: pós-expectativas frustradas. Nesse sábado chuvoso, em que a escritora está insone, o dono da banca viu o quadradinho redondo fosforescente a quase 3m dali, na calçada. “Piscando assim, deve estar com pilha boa”. Aliás, a bateria do meu laptop já está acabando e aquela preguiça de levantar a bunda. Escrevo deitada. Torcicolo, braço direito formigando e tal. Pescoço em “L”. Ao meu lado um silêncio terrível e uma vontade de pular toda a tarde. Para os vampiros, a noite é pára-raios de sonhos. Ele vai até o objeto, agacha-se e o examina. Um parágrafo e já tantas voltas. Ele procura algo de extraordinário no pisca-pisca. Precisa encontrar o meu mote. Convenhamos que só mesmo se uma bomba ali estivesse ou talvez uma mensagem criptografada conseguiríamos continuar a falar do moço da banca. Não gosto de ficção científica. O moço da banca tem sete filhos. Nenhum deles é muito interessante. Talvez um seja traficante e esteja agora preso, mas não vejo conexão com o pisca-pisca. E nós temos que falar sobre o pisca-pisca. Está lá piscando, e não fizemos ainda nada com ele. Bola dividida com uma semana do cão, o chefe falando “não sei não, não sei não”; bolsos vazios; tempestade; internet sem sinal; lâmpada queimada no banheiro... tudo mentira quando o problema maior reside em um homem, quase um cachorro. O pisca-pisca tinha um adesivinho roxo onde se lia: “aqui”. Muito absurdo. Digamos que seja um pisca-pisca de bicicleta que tenha dela caído. O adesivo alguém colou ali porque queria se livrar dele e como o pisca-pisca chama muita atenção... Sabemos todos que essa é uma péssima explicação, mas nesse momento já estamos íntimos. Posso até lhes contar uma segunda estória. Um momento: não gosto de mulherzinhas, draminhas, autobiografiazinhas e meu chazinho com açúcar. Dito isso, podemos abrir minha janela. Daqui, desse retângulo, lá embaixo, uma banca. A Augusta vadia dorme ou frita. Pela calçada os últimos malucos: óculos enormes, chapéus esquisitos, roupas-néon. Ele está em um apartamento no primeiro andar do prédio baixo marrom ponto de putas quase em frente ao meu. Não vamos mais discutir o quanto tentei que essa não fosse mais uma estória sobre ele. Olhos arregalados. Meu pequeno poder de decidir o que ele pensa. As paredes pintadas de ocre (ele ainda conserva aquela jaqueta manchada) já estão cheias de bolhas. O lençol rasgado, porque o meu está sujo. É claro que ele está acordado, isso não está em pauta. Abraça o travesseiro com as pernas como se fossem as minhas. Dizer que ele se arrepende seria naïf. Então eu escrevo que ele sente muito por não estar aqui e fazer um possível momento virar letra. Estende o braço até a escrivaninha. Lá já esteve um livro meu. Lia para ele trechos bem piegas. Tenho dessas coisas às vezes.O maço de cigarros está vazio, o que para ele, a essa hora – dentes amarelados – é o equivalente a saber que está com câncer. Pula - faz secretamente seus movimentos ninjas. Põe a calça/ camisa do dia anterior. Rapidamente sai. Daqui, desse retângulo, eu o vejo. Vai atravessar a rua. Olha só para um lado. Típico. Pára na linha amarela, bem no meio da rua, carros descendo. Passa um. Vai correndinho, do seu jeito obcecado – cigarros! Antes de contornar a banca, aos seus pés, um pisca-pisca. Ele se agacha. Examina-o com atenção. Há nele um adesivo roxo, onde está escrito: “aqui”. Enquanto isso, eu daqui de cima preparo um vaso de flores, azaléias como aquelas. Miro-o bem na sua cabeça. Presente literário adiantado do dia dos namorados, meu amor.
Escrito por Clotilde e cia às 16h07
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Na última gaveta do móvel azul do quarto
Sim, essa também é a estória do cigarro. Do último beijo dado no meu rosto acompanhado de um longo abraço incômodo, apertado demais, braços sufocantes de polvo. Do seu olhar marejado, sua tentativa de sorriso, quase alcançando a pintinha do lado direito do lábio e da frase clichê dita de forma solene: “Vou à banca comprar um maço e já volto”. Fumava Carlton vermelho. Não entendo até hoje como alguém pode fumar Carlton. Acho de péssimo gosto. Lembro-me que assim que ele bateu a porta, caí pesada no sofá e liguei a TV. Ainda falavam da morte do Ayrton Senna. Eu já não agüentava mais ouvir falar dele. Meu pai acompanhava as corridas. Não chorou, mas se chorasse, pelo Ayrton ele teria. Repetia incessantemente no dia fatídico: que tragédia, que tragédia, que tragédia... enquanto minha mãe lixava as unhas bufando de tédio. Eu zapeava preguiçosa a TV e por um segundo - depois isso veio raio na memória – por um segundo, a dúvida-imagem de uma mala preta, coisa muito rara. Outro canal. Algum desenho animado. Tom com a cabeça presa numa ratoeira enquanto Jerry gargalhava. Não o ver virou rotina, como tomar banho e ir para a escola ou ouvir a ladainha da minha mãe sobre a mulher moderna e independente que invariavelmente acabava em lágrimas. Palavras sobre ele eram esparsas e, para mim, proibidas. Pescava conversas de vizinhas sobre o Rogério, o tal Roger, que tinha ido com outra, aquela costureira morena bonita. Vizinhas gostam de tricotar. Mesmo assim, rasguei propositalmente a manga de uma camiseta e cheguei com olhinhos inocentes para minha mãe: “ó, rasgou; você conhece alguma costureira?” Peguei um castigo bravo, duas semanas sem gibizinhos, televisão e sorvete, o que realmente era uma sacanagem. Assim findou minha vontade de investigar as tais linhas soltas. Eu comecei a ler “Robson Crusoé” debaixo da mesa da sala de estar, onde tinha mania de brincar com os pés dele. Imaginei que as pernas da mesa demarcavam a minha ilha. Minha mãe não descobriu os riscos que eu cavava na madeira a cada dia como os náufragos. Uma sorte. Levava lá para baixo objetos que eu gostava. Um por vez, para que eles se sentissem especiais. Às vezes ela me carregava dali para cama, o que eu acho que causou sua hérnia de disco. Não sei se ela viu a foto que eu colei dele no tampo da mesa, no fundo. Eu estava no seu colo, num parque perto de casa. Ele usava sua camisa xadrez que minha mãe adora e até hoje guarda e eu tinha cara de quem fez cocô - isso disse minha tia Vera. Só parei de freqüentar a ilha, quando descobri o prazer de me masturbar no chuveirinho. Passava horas no banheiro. Uma obsessão pela outra, mas acho que minha mãe ficou mais aliviada. Quando ela me ligou pedindo que eu fosse ao necrotério, pensei em recusar: temia não reconhecê-lo. Enquanto dirigia – juro que minhas mãos não tremiam e nenhuma lágrima nem com lupa você veria – tentava reconstruir o seu rosto, mas como ele era parecido com o Roberto Carlos, a imagem do rei se sobrepunha à do meu pai. No caminho, passei na casa da minha mãe para pegar um álbum de fotos. Sim, tive que lhe dizer meia dúzia de palavras de consolo enquanto ela estrebuchava no tapete felpudo do quarto e eu observava que sua blusa rosada já estava cheia de pêlos brancos o que me irritava ainda mais que do que seu choro agudo. Finalmente me desvencilhei dela para mergulhar nas imagens daquilo que um dia ele havia sido. Coloquei o álbum no banco do passageiro e o ia folheando, dividindo a minha atenção com o trânsito. Ele sempre sorria. Farol vermelho. Sempre tão sereno. Abriu. Seus gestos parecem tão carinhosos. Poderíamos fazer um comercial de margarina com essa foto aqui. Sentido centro. Talvez ele esteja gordo e careca. A costureira decerto não o quis no final, não se deu nem ao trabalho de reconhecer a porra do corpo. Ou talvez tenha sido só uma aventura. Coisa de um mês e aí ele não teve coragem de voltar para casa. Talvez nos visitasse secretamente. Tivesse um apartamento no edifício em frente e nos espiasse com o binóculo. Droga, perdi a saída, agora vou ter que dar uma volta enorme. Essa foto em Ubatuba... meu pai nem gostava de praia. Aliás, odiava. Não suportava areia. Ainda assim, aqui parecemos duas lagartixas contentes tomando Sol. Meu ex-namorado parece com ele. Credo! Ele era um homem bonito. Uma pena que mal o conheci. Dizem as fotos que era meu pai, que era feliz. É por isso que eu não tenho máquina fotográfica. Acho que é aqui o retorno.
Escrito por Clotilde e cia às 21h44
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A MULHER QUE PASSA
Uma página nua cheia de possíveis curvas. Eu a via passando por volta das quatro da tarde na frente do Astor, os cabelos castanhos e lisos longos quase até a cintura, o figurino branco acompanhado por uns óculos de sol enormes e marrons (mesmo na chuva) e o all star preto em ritmo compassado sempre atrasado para não sei onde. Eu a chamava de Rita e nos dez segundos diários que de passagem eu a via (eu ficava bem na frente do bar arrumando as florzinhas artificiais), tecia as histórias do nosso primeiro encontro. Talvez um pequeno esbarrão quando eu abrisse a porta seguido de um: “perdão / não tem problema / se machucou? / não”, enquanto minha mão alisasse seu ombro e os nossos olhares já enlaçados. Ou então, despretensiosamente, num supermercado, na seção de legumes e vegetais, mais precisamente escolhendo berinjelas, que nós dois amamos. Ou ainda (e não custa ser um pouco romântico), salvando-a de uma situação de risco: eu estou fechando o bar à noite e ela passa do outro lado da calçada. Noto que um sujeito corre em sua direção. Cruzo a rua. Ele tenta agarrar sua bolsa. Eu o empurro. Ele vai embora assustado. Ela me agradece, olhos de adrenalina. Me dá um beijo na bochecha. Eu sinto pela primeira vez a maciez do seu rosto, tudo aquilo que eu havia escrito. Dez segundos apenas de Rita enchem tantos guardanapos. Os versos que eu nunca tive talento pra fazer. Passam por todos os clichês e forçam rimas, mas ainda assim, eu os releio com o todo o cuidado e enfio cada papelzinho no bolso da calça jeans para guardá-los posteriormente com os outros em casa. O personagem Rita (moça-sempre-de-branco-dos-óculos-nunca-pára), gosto de pensá-la fisioterapeuta. Atende uma senhora judia há umas cinco quadras de onde trabalho que sofre de má circulação devido à diabete. Ela escuta pacientemente a senhorinha que discorre sobre as manias novas do marido que sofrera recentemente um AVC. Adoro mulheres que me ouvem. Sou chato e rabugento. Quando envelhecer ficarei terrivelmente ranzinza. Além de fisioterapeuta, quero que Rita estude história da arte às quartas-feiras. Simplicidade mesclada a uma certa vontade de conhecer o mundo, viajar. Eu, por exemplo, sonho em conhecer a França. Não falo mais que “oui”, mas vez ou outra assisto a um daqueles filmes melancólicos franceses e me debulho em lágrimas. Nada mal nós dois no Musée d’Orsay de mãos dadas. Não, ela não é fã de arte contemporânea. Tudo bem, eu também não entendo muito. Dentro da mochila, além do material de trabalho, ela carrega um livro. Gosta especialmente de romances policiais. É uma moça de Best-sellers, hábito que me fará torcer o nariz depois de uns quantos meses e lhe apresentar os livros de Leblanc. Ela vai adorar. Rita domina o meu vazio. Porém, quando o buraco fica muito fundo ou o tesão muito grande, permito-me umas escapadelas. Uma mocinha, mais precisamente uma garçonete recém contratada do Astor, foi dormir lá em casa. Faço questão de não levar as mulheres para o meu espaço. Nada mais insuportável do que dormir/acordar com um corpo estranho/incômodo ao meu lado. Detesto. Quase fobia. Dessa vez foi inevitável. Ela foi bem insistente e era ajeitadinha. Me chupou dentro do banheiro no final do expediente e disse “pra onde vamos?”. Resposta bate-pronto: pro motel. Aí ela veio cheia de “nãos”, que motel não é lugar decente, não se sentiria confortável, que sabia que eu morava sozinho e por perto etc e tal. Fomos. Não sem antes passar num bar fim de linha e tomar algumas cervejas. Depois da trepada nada mal, da minha insônia terrível esperando que ela fosse embora (sou minimamente educado), lá pelas onze horas da manhã dei um leve chute na sua canela para que ela acordasse. Ela sorriu cheia de beijinhos. Eu falei que tinha alguns compromissos e precisaria sair em breve. Fui pra cozinha. Cinco minutos depois, ela veio seminua, olhinhos entretidos, com um papelzinho rabiscado na mão. Um dos meus poemas. Disse que achara no chão. Tinha lido. Achara lindo. Alguma coisa bem estúpida sobre a aceleração dos batimentos cardíacos numa queda livre e rever a mulher amada. Senti-me ofendido. Arranquei o papel da sua mão enquanto ela divagava sobre o meu talento de escritor, se eu tinha outros como aquele, que ela também sentira uma conexão especial entre a gente... e nessa hora, eu segurava a chaleira quente e por pouco não lhe enfiei na cabeça. Sempre soube que eu não era um arquiteto de palavras, mas nesse dia eu descobri que não só meus versos eram fracos, como serviam apenas para o meu único e exclusivo prazer. Nunca quis que eles fossem lidos. Nem mesmo pela pessoa para a qual eles eram escritos. Esperei os dez segundos de Rita, ou quem quer que ela fosse, passar por mim naquele dia em branco. Arrumei as florzinhas artificiais das mesas da calçada. Arriscaria um contato? Uma palavra? Palavra viva. Som carne osso dentes. 16:17. Vi no meu relógio. Ela vem descendo. O mesmo traje branco no seu rebolado rápido. Nunca vi seus olhos. Não sei de que cor são. Ela se aproxima furacão a cada passo. Sei que se não for agora não será nunca. Porque essa mulher não se chama Rita, talvez ela seja dentista, goste de samba rock, tenha mania de palitar os dentes depois de comer, vai saber... Quando termino um verso, eu gozo. Palavra de punheteiro. A mão vem e vai no seu ritmo. Nada de acrobacias, complicações ou riscos. Gozo raso. Essa mulher se chama Desconhecido.
Escrito por Clotilde e cia às 20h49
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O Imperador Branco
Mesmo com a farinha grudada no nariz o pau estava inquieto. Aquela janela escancarada chamava-o num grito. A última gozada. A esporrada magistral. Não há de ser com puta, não. Quero é gozar na cabeça dos passantes. Foi assim num pulo de gato com uma garrafa na mão e o telefone sem fio na outra que ele ligou para o disk-sexo da beirada do mundo. O vento da madrugada arrepiando os pentelhos já descobertos. Uma voz doce de putinha loira atendeu: _Boa noite. _Boa noite o caralho. _Ui, como você é grosso. Adoro. _Escuta aqui minha filha, lá embaixo... muitos metros. Quando eu cair não vai sobrar noite nenhuma. _Ahn? _14 andares, pra ser mais preciso. Será que as formigas flutuam? _Desculpa, gato. Não tô sacando o seu jogo. _Imbecil, eu tô pagando, você não tem que sacar nada. Eu quero só que você fale aquilo que eu preciso. Vai morrer comigo. _O se.. senhor não está pensando em... _Voilá. É nisso mesmo que estou pensando, no cheiro da sua buceta. Ela fede? Adoro buceta com cheiro de comida estragada. _Senhor, eu tenho aqui o telefone do CVV. Se você não está se sentindo muito legal... _CVV de cu é rola, eu quero gozar no ar. Agora me diz, como você é? _Hummm. Tá. Loira, alta, 18 aninhos, olhos verdes, peitos grandes bem gostosos, bundão, cintura fina... _Não, como você realmente é. _Assim. _Caralho, não vai regular o meu último desejo, né, piranha? _Gordinha, cabelos crespos, óculos fundo de garrafa. Satisfeito? _Boa menina. E o seu nome? _Valquíria. _Hahaha, tá bom. _Solange. _Sol da minha noite. _Que fofo! _Brega pra caralho. Sempre fui um poeta medíocre. _Relaxa, gato, você só tá um pouco pra baixo. _É a porra da coca. _Você também é um pouco mal-educado, mas deve ter lá suas coisas bacanas, né? _Ah, você quer que eu me jogue mais rápido, é isso? _Não, mas se quer mesmo se jogar, não entendo porque fica desperdiçando a porra do meu tempo com esse papinho cretino, seu babaca. _... _E aí, vai querer bater uma, ou não? _Acho que... passou a vontade. _Ótimo, que já estou no final do expediente. _Sabia que antes de me atirar eu posso ligar pro seu supervisor e fazer uma reclamação, sua vaca? _Então aproveita pra dar o cu pra ele também que o meu ele adora. _Você sabe quem eu sou? _O quarto maníaco-depressivo da noite. _Filha-da-puta. _Boa queda, senhor. Frio de gelar os ossos aquele “tu-tu-tu-tu” do telefone. Jogou o aparelho lá embaixo. Alguns segundos apenas para se espatifar completamente contra o concreto. Sua cama parecia mais macia.
Escrito por Clotilde e cia às 20h41
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Encolher palavras quando o vazio é generoso.
Escrito por Clotilde e cia às 12h47
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No dia 12 de Junho meu Fusquinha azul bebê 85 acelerou pelas íngremes ladeiras de Perdizes, espatifando-se, no fim, contra um muro. Meu seguro emocional cobriu quase tudo... mas o salto do sapato eu tive que mandar pro conserto.
Escrito por Clotilde e cia às 21h54
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Antílope na Relva
Para a inventora da expressão que nomeia o texto e para o inventor da série de expressões "pokemon" Duas lindas amigas em uma mesa de bar: _Eu já fiquei com ele. _Eu também. _Não estava muito afim, fiz cú doce a noite inteira, mas acabei tomando várias e no final cedi: fui para o apê dele. _Já eu sempre curti o cara. Uma noite saquei que ele estava me olhando bastante e aí comecei a olhar de volta. Uma hora ele foi pegar um drink no bar e eu fiz o mesmo só pra engatar uma conversa. Dali pro motel foi um pulo. _Ele me ligou no dia seguinte. Não atendi. Ai, não rola... mas ele continua me ligando até hoje, acredita? _Que coisa!.. Ele nem pegou meu telefone. Quando por acaso nos encontramos, trepamos. Acho que ele deve estar na tua. _Talvez... Mas ele nem trepa assim tão bem! _Estamos falando do mesmo cara? _Fulano. _Fulano. _Vamos pedir mais uma cerveja. _E Cicrano, na mesa perto da porta, você já pegou? _Já namorei. _Mas ele é um cafajeste! _Comeu na minha mão, meu bem. _Essa coisa de dizer "não", funciona. _Funciona. Eu não ligo, não olho... _Não trepa. _Trepo, mas só quando quero muito. _Basicamente você fica esperando ser caçada... _Por aí. É bem menos trabalhoso. _... como um antílope na relva. _Ahn? _Uma expressão que uma amiga inventou. _Ahh, que seja... um antílope na relva. _Acho um pouco entediante. _Mas resulta. Você tem que ser mais pragmática. _O meu bicho correspondente seria uma cabrita saltitante. _Ahn? _Deixa pra lá. Ó, vou na mesa de Fulano. Você está pensando em sair daqui com ele essa noite? _Acho que... não. Não, não. _Ótimo. Então eu vou lá dar os meus pulinhos enquanto você fica aqui na relva. E que vença a melhor! _Eu não quero entrar numa disputa com você. Já te disse que... _Ahhh, não faz a pokemon bêbada pra cima de moi, não. _Você anda cheia das expressões. _Elas tem copyright. _Você devia inventar uma sua. _E vc devia aprender a... Bom, deixa pra lá. _O quê? _Não, eu ia baixar muito o nível. É melhor eu sair da mesa antes que a gente pare de se falar. _Pois eu não vou ficar aqui sozinha. _Então eu vou pra mesa de Fulano e você pra de Cicrano. _Mas eu prefiro Fulano. _Então a gente faz o inverso. _Mas eu quero me sentar junto com você. _Ah, não faz a pokemon lésbica pra cima de mim não!!!
Escrito por Clotilde e cia às 21h53
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Vai lá nos assistir... 
Escrito por Clotilde e cia às 15h34
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SEXUS
"Escrever, meditei, precisa ser um ato destituído de vontade. A palavra, como as correntes oceânicas profundas, precisa subir à superfície por seu próprio impulso. A criança não tem necessidade de escrever, é inocente. O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita. Sua inspiração é desviada na fonte. Se é um mundo de verdade, de beleza e de mágica que deseja criar, por que interpõe milhões de palavras entre ele e a realidade desse mundo? Por quê retarda a ação?" TRECHO DE "SEXUS" DE HENRY MILLER
Escrito por Clotilde e cia às 04h31
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Quando a Lua Cantou Azul
Uma voz como a dela, ressoa eternamente na memória. Lua, talvez Luana, brilhou em um palco podre de madeira do "Darling". Fui parar lá em uma dessas noites em que não consegui voltar para casa, ver a mulher, brincar com os filhos. Na volta do trabalho, deixei que o carro me conduzisse para um canto escuro e desconhecido da cidade. Uma ruela de nome sugestivo - algo como Rua das Graças - e suficientemente distante do que eu podia chamar de lar. Na entrada do bar, em néon, o desenho de uma mulher de curvas generosas e peitos para fora. "Não é má idéia comer uma puta hoje", pensei. Dei dez mangos para o gorila da porta que disse-me num sorriso largo sem alguns dentes: "Aproveita, que aqui a parada é quente!" E como eu precisava de calor!... Calor sujo, com gosto de bebida e sexo. Entrei meio afoito. Fazia tempo que não me aventurava em um lugar desses. Consegui a última mesinha vazia. À minha volta, vários machos ansiando pela abertura da cortininha vermelha a nossa frente. Algumas putas desfilavam de mini shorts e salto alto pelo salão. Uma delas - uma loira tingida quase bonita - parou perto de mim. Fez menção de sentar-se comigo. Recusei delicadamente. Ela me deu as costas meio emburrada fazendo "puuuuuuf..." Bom, não era assim uma princesa e a verdade é que eu queria primeiro ver o tal show de strip-tease. Pedi uma dose de uísque sem gelo e tomei de uma vez. O álcool subiu fazendo festa e aumentando meu tesão. Pedi uma garrafa. Foi nessa hora que a música melosa interrompeu-se de súbito. Uma voz anunciou: "Atenção senhores, com vocês a nova menina da casa - LUUUUUUUUUA." A cortina abriu desajeitada e uma figura esguia de longos cabelos encaracolados pretos apareceu na sombra ao fundo do palco. Ela trajava um vestido azul bem colado no corpo até os joelhos que revelava um imenso traseiro - bela composição com sua fina cintura. Ela caminhava vagarosamente em direção ao proscênio, onde havia um microfone. Seus passos pintavam o surpreendente silêncio daquela sala repleta de testosterona. Quando seu rosto alcançou a luz do refletor, minha boca entreabriu-se com a beleza delicada dos seus traços. Uma morena de grossas sobrancelhas, olhos pequeninos e negros como duas jabuticabas e uma boquinha esculpida pelo vermelho do batom, surgiu com o cenho fechado, olhando para além do público. "Uma música que gosto." , disse quase infantil. Ela fechou os olhos e uma voz redonda e aveludada saiu de sua boca mel cantando a música mais bela e inadequada para um lugar como aquele: "Some day he'll come along, the man I love; And he'll be big and strong, the man I love; And when he comes my way, I'll do my best to make him stay. He'll look at me and smile..." O seu corpo não se movia, ela estava em transe com a imagem daquele homem-promessa que iria amá-la. No meio do meu encantamento, um porco gordo e velho gritou impaciente: "Tira a roupa logo, caralho." Ela continuou sua melodia, inalterada. Um outro grito violento rasgou sua canção: "Que porra de música é essa?" Ela disse solene: "Não sou puta, sou cantora." Vaias por todos os lados. O homem que a havia anunciado subiu ao palco e a arrastou para fora pelos cabelos. Uma música barulhenta preencheu o vazio do palco. Não pensei um segundo antes de levantar-me em um pulo e correr em direção ao palco para buscá-la. Estava certo de que eu era o o homem para o qual ela cantava. O segurança me impediu. Tentei explicar que era seu amigo de longa data, que queria ajudá-la... Nada feito. Saí do bar para procurá-la e lá estava ela, sentada na sarjeta, cabelos desgrenhados e com um choro manso escorrendo pelo desenho do seu rosto. _Gostei da música. _Você foi o único. _Posso te levar para algum lugar? _Eu não sou puta. _Eu sei disso. Vamos tomar um café? Cruzamos a rua e entramos em um boteco. _O seu nome, Lua, vem de Luana? _Pode ser. Eu pedi uma cachaça. Ela comeu um sanduíche e tomou um copo de leite. _Eu tive vergonha de tirar a roupa. _Eu imagino, mas esqueça isso agora. _Não tenho onde passar a noite. Eles não me pagaram. _Te levo para um lugar que conheço. _Não sou puta. _Eu sei, você já disse isso. Entramos em um motel bacana que fica em uma rodovia, aqueles com hidromassagem, cama larga, espelhos por todos os lados, lençois finos. _Lugar de rico esse. _Nem tanto... Olha, você pode passar a noite aqui. Eu vou embora. Será que você poderia me dar pelo menos seu número de telefone ou me dizer onde posso vê-la novamente? Ela pulou nos meus braços e me apertou com firmeza esfregando sua testa no meu peito. _Você é tão... Não continuou a frase. Sua boca juntou-se a minha em um beijo molhado. Eu a carreguei para cama como se faz com uma mulher na noite de núpcias, o sexo de um adolescente controlando a excitação aguda por baixo da roupa. Desvencilhei-me do seu corpo antes que a vontade de despí-la fosse maior que o meu cavalheirismo: "ela não era puta." _Cante para mim. _When the mellow moon begins to beam, ev'ry night I dream a little dream; And of course Prince Charming is the theme: the he, for me. Although I realize as well as you, It is seldom that a dream comes true, to me it's clear that he'll appear... Eu a abracei, fechei os olhos e me entreguei adormecido ao doce que me invadia os ouvidos. Pela manhã, meu braço buscou seu corpo azul ao lado e encontrou um travesseiro. Levantei assustado. Vesti a roupa rapidamente e corri até a recepção. _A menina que estava comigo, uma morena de vestido azul, ela já... _Foi embora, senhor. _Quando? _Ainda de madrugada. Virei as costas e comecei a caminhar em direção à saída. _Senhor? _Sim. _Você excedeu o período de 12 horas, tem que pagar o restante do dinheiro. Suspirei, abri a carteira e acho que gritei. Aliás, gritei mesmo, um gritinho quase feminino ao me deparar com a carteira completamente vazia. Os cartões e documentos ainda lá, mas 200 reais em espécie que viraram pó. _Pode passar no cartão. _Claro, senhor. Eu ainda a procurei no bar aquela noite. Tinha sido despedida. Restou-me apenas a lembrança viva de uma encantadora fêmea chamada Lua, Luana, talvez Iara.
Escrito por Clotilde e cia às 15h24
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Canis
Ela não era assim bem ela como dizia que era. Natureza açucarada disfarçada a todo custo. Gritos espalhados pelo vento por toda a cidade. Essa coisa meio melada que escorria do seu coração, tinha um cheiro esquisito. Ela odiava. "Sou forte. Sou bruta. Ninguém me derruba." Só que uma vez (e na vida de cada um sempre existe essa "uma vez") que lhe roubaram a carteira quando ela saia do ônibus. Salário assim fresquinho ela tinha recebido. Ela ainda tentou dar porrada no ladrão, que lhe virou uma direita que a fez desmaiar. "Você está bem, moça?" Levantou e começou a andar furiosa para casa. Passos de trovão. Você não ganhou a briga, não dessa vez, baby. Ela estava com uma bota de couro marrom, a que ela mais gostava, claro. E o marrom da bota de repente se misturou ao cocô da calçada. Filho-da-puta. Cachorro filho-da-puta. Odiava cachorro. "Todos para a carrocinha". Esfrega, esfrega, sai merda nojenta. "O moça, você tem 10 centavos, qualquer coisa, só pa dá uma ajuda, eu tenho 6 fi..." 'Não tenho.' "Vaca do caralho!" E o maltrapilho saiu assim xingando ele que exalava um cheiro do inferno e que estava bem mais fudido do que ela mas isso não tinha importância nenhuma não agora porque eu sou a pessoa da bota cagada do salário roubado e vai se fuder seu filho-da-puta. "Todos cachorros. Engravatados, descolados, fudidos. Todos." E esfregando esfregando a bota chegou na soleira da porta. Carta branca do banco. Cheques cancelados por falta de pagamento. Carta da vizinha. Ação de despejo. Carta dele não tinha. Não havia nenhuma poesia em um envelope azul e coraçõezinhos pintadinhos. Quanto tempo já não havia poesia!... Abre a porta. Não abre. A chave não roda. "Vira chave cretina e me deixa entrar na minha casa que ainda é minha por tão pouco tempo." Porta na cara, todas as portas resolveram se bater ao mesmo tempo, fazendo um estrondo tão grande que a deixou zonza por alguns segundos, segundos que a distanciaram da COISA. "Parece cena de filme. Poderia ser engraçado." Mas a real é que esses segundos duraram segundinhos, porque já estava frio e tinha começado a chuver fininho crescente, e ela estava com merda no sapato, a carteira vazia e... a porra do celular sem bateria. Mesmo que tivesse que ligar pra alguém a essa hora não ligaria. Os amigos não existem na madrugada. "E pra ele eu não ligo! Rola no cú dele." Banco da praça foi o destino. E foi caminhando trôpega de desgosto, chuva já caudolosa. Apalpou a salvação no bolso do casaco. "Ai, esses canudinhos fazendo fumaça no meu peito." [ Claro, claro, ainda não é o momento de virada do texto, ela precisa se fuder mais um pouco. ] Tinha resolvido economizar no cigarro, ao invés de comprar box, comprou maço (R$0,75 mais barato), maço que virou uma massa amolecida pela cachoeira divina. "Se eu encontrasse Deus agora, eu o mataria. Eu e o Diabo." Banco da praça, não perca o foco, menina. Banco verde assim com uns cocôs de pomba decorativos. Embaixo de uma uma árvore frondosa, ao menos a protegia da chuva. "Vem vindo alguém. Putz, é a porra do mendigo!" Ele vinha cambaleante na sua direção. "Ele não vai tomar meu banco. Esse banco agora é meu." Colocou raivosa as duas mãos sobre a madeira. Ele parou na frente dela. Virou a cabeça para o lado como um cachorro. Aquele bafo de cachaça!... "Moça, cê tá pecisando de um cigarro?" Ela fez que sim com a cabeça. Ele tirou três cigarros amassados do bolso envoltos em um plástico preto. Deu-lhe um e acendou com o fósforo na primeira tentativa mesmo. "Você quer se sentar comigo?", disse ela assim com olhinhos de cachorro também. "O moça, cê tá pecisando desse banco mais do que eu." E foi. Virou as costas e saiu fora, 1. 2. Ela fumou calada de palavras que não conhecia aquele dia de cão.
Escrito por Clotilde e cia às 19h11
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Cadelambuzou-se por todo o lixo da cidade. Au, ui, ai. Seu sexo não tem pedigree.
Escrito por Clotilde e cia às 05h53
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Comunicado
Minha irmã Clotilde passou por aqui e reformulou esse blog. Muitos textos foram apagados, o nome mudou e até a cara. Ela passará a escrever à partir de agora.
Escrito por Clotilde e cia às 05h28
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