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Canis
Ela não era assim bem ela como dizia que era. Natureza açucarada disfarçada a todo custo. Gritos espalhados pelo vento por toda a cidade. Essa coisa meio melada que escorria do seu coração, tinha um cheiro esquisito. Ela odiava. "Sou forte. Sou bruta. Ninguém me derruba." Só que uma vez (e na vida de cada um sempre existe essa "uma vez") que lhe roubaram a carteira quando ela saia do ônibus. Salário assim fresquinho ela tinha recebido. Ela ainda tentou dar porrada no ladrão, que lhe virou uma direita que a fez desmaiar. "Você está bem, moça?" Levantou e começou a andar furiosa para casa. Passos de trovão. Você não ganhou a briga, não dessa vez, baby. Ela estava com uma bota de couro marrom, a que ela mais gostava, claro. E o marrom da bota de repente se misturou ao cocô da calçada. Filho-da-puta. Cachorro filho-da-puta. Odiava cachorro. "Todos para a carrocinha". Esfrega, esfrega, sai merda nojenta. "O moça, você tem 10 centavos, qualquer coisa, só pa dá uma ajuda, eu tenho 6 fi..." 'Não tenho.' "Vaca do caralho!" E o maltrapilho saiu assim xingando ele que exalava um cheiro do inferno e que estava bem mais fudido do que ela mas isso não tinha importância nenhuma não agora porque eu sou a pessoa da bota cagada do salário roubado e vai se fuder seu filho-da-puta. "Todos cachorros. Engravatados, descolados, fudidos. Todos." E esfregando esfregando a bota chegou na soleira da porta. Carta branca do banco. Cheques cancelados por falta de pagamento. Carta da vizinha. Ação de despejo. Carta dele não tinha. Não havia nenhuma poesia em um envelope azul e coraçõezinhos pintadinhos. Quanto tempo já não havia poesia!... Abre a porta. Não abre. A chave não roda. "Vira chave cretina e me deixa entrar na minha casa que ainda é minha por tão pouco tempo." Porta na cara, todas as portas resolveram se bater ao mesmo tempo, fazendo um estrondo tão grande que a deixou zonza por alguns segundos, segundos que a distanciaram da COISA. "Parece cena de filme. Poderia ser engraçado." Mas a real é que esses segundos duraram segundinhos, porque já estava frio e tinha começado a chuver fininho crescente, e ela estava com merda no sapato, a carteira vazia e... a porra do celular sem bateria. Mesmo que tivesse que ligar pra alguém a essa hora não ligaria. Os amigos não existem na madrugada. "E pra ele eu não ligo! Rola no cú dele." Banco da praça foi o destino. E foi caminhando trôpega de desgosto, chuva já caudolosa. Apalpou a salvação no bolso do casaco. "Ai, esses canudinhos fazendo fumaça no meu peito." [ Claro, claro, ainda não é o momento de virada do texto, ela precisa se fuder mais um pouco. ] Tinha resolvido economizar no cigarro, ao invés de comprar box, comprou maço (R$0,75 mais barato), maço que virou uma massa amolecida pela cachoeira divina. "Se eu encontrasse Deus agora, eu o mataria. Eu e o Diabo." Banco da praça, não perca o foco, menina. Banco verde assim com uns cocôs de pomba decorativos. Embaixo de uma uma árvore frondosa, ao menos a protegia da chuva. "Vem vindo alguém. Putz, é a porra do mendigo!" Ele vinha cambaleante na sua direção. "Ele não vai tomar meu banco. Esse banco agora é meu." Colocou raivosa as duas mãos sobre a madeira. Ele parou na frente dela. Virou a cabeça para o lado como um cachorro. Aquele bafo de cachaça!... "Moça, cê tá pecisando de um cigarro?" Ela fez que sim com a cabeça. Ele tirou três cigarros amassados do bolso envoltos em um plástico preto. Deu-lhe um e acendou com o fósforo na primeira tentativa mesmo. "Você quer se sentar comigo?", disse ela assim com olhinhos de cachorro também. "O moça, cê tá pecisando desse banco mais do que eu." E foi. Virou as costas e saiu fora, 1. 2. Ela fumou calada de palavras que não conhecia aquele dia de cão.
Escrito por Clotilde e cia às 19h11
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Cadelambuzou-se por todo o lixo da cidade. Au, ui, ai. Seu sexo não tem pedigree.
Escrito por Clotilde e cia às 05h53
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Comunicado
Minha irmã Clotilde passou por aqui e reformulou esse blog. Muitos textos foram apagados, o nome mudou e até a cara. Ela passará a escrever à partir de agora.
Escrito por Clotilde e cia às 05h28
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Tic-tac. Tic-tac. Tictaquiteataque-mecardia, mas não me mate.
Escrito por Renata Calmon às 02h06
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Um maço vazio numa madrugada filha-da-puta é um perigo. Sem cigarro, você não expira a fumaça de lágrimas insistentes que por sua vez saem irriquietas e líquidas pelos olhos. Depois que elas te invadem o rosto, vem os soluços profundos de saudade e de raiva. Assim, inevitavelmente, vomitam-se todas as palavras duras e cruéis, que nunca tem resposta. Minha teoria não falha: acaba-se uma história de amor pela falta de nicotina.
Escrito por Renata Calmon às 01h38
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Coração gosto de sangue. Cabeça cheiro de fumaça. Separar-se é uma poesia de tato.
Escrito por Renata Calmon às 17h05
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A Mulher Melancia
Comecei a dormir na primeira palavra. Ela falava assim meio moooooole com, espaços ,, e, vírgulas desnecessárias. A bunda tinha me enganado. Sempre ela. Não sei porque continuo acreditando que a bunda tem o mesmo tamanho do cérebro. Eu preferiria conversar com a bunda dela, mas o jantar ainda nem estava pronto e eu teria que aturar por algumas horas o vem e vai brochante daqueles lábios murchos antes do prato principal. Foi nessa hora, bendita hora, que ligou a Duda: _Oi Má. _Oi... o que aconteceu? _Nada, só queria te chamar pra ir ao samba com a gente hoje. Vou eu, a Regi... _Hospital? Onde? _Ahn? _Eu vou até aí agora, fica tranqüila. Ele tá muito mal? _Marcelo, que parada que você andou tomando? Tô falando do samba. _Ai meu Deus, vou correndo. Não chora. _Ah, vai se fu... _Beijo. Tchau. São doces as mentiras brancas.
Escrito por Renata Calmon às 22h55
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A Missão
"Você quer ser meu escravo. Você me ama. Estes são os lábios que te beijaram. Eles se lembram da tua pele. Estes são os seios que te aqueceram. Eles não esqueceram nem a tua boca nem as tuas mãos. Esta é a pele que bebeu teu suor. Este é o colo que recebeu teu sêmen, que me queima o coração. Quero retornar o que tua puta, a revolução, roubou de mim, a minha propriedade. Com os dentes dos meus cães eu quero arrancar de tua carne manchada, o vestígio das minhas lágrimas, do meu suor, meus gritos de prazer. Quero do teu corpo, com as lágrimas de suas garras, talhar meu vestido de noiva no teu hálito, que tem gosto de reis mortos, quero traduzir para a linguagem da tortura. Quero comer teu sexo e parir um tigre, que devore o tempo, com o qual os relógios batem meu vazio coração. Ontem comecei a matar-te meu coração Agora eu amo teu cadáver Quando eu estiver morta Meu pó gritará por você." de Heiner Muller ps: porque vênus anda sambando na praça
Escrito por Renata Calmon às 00h39
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RAPIDINHA
_Você é tão difícil... _Você é bem mais difícil do que eu. _Quer apostar? _Um boquete. _Duas cervejas. _Par. _Ímpar. _Ganhei. _Droga. Ok, um boquete ou... _I go down on you, baby. _Fechado. _Você tem casos espalhados por toda a cidade. _Você namora firme e ainda por cima a trai. _Você quando bebe flerta com todo o bar. _Você quando bebe sempre leva uma mulher para casa. _Você fica brava e apaga o meu número do celular. _Você nunca atende quando está com ela. _Você fala mal de mim para os meus amigos. _Você fala para os seus amigos que eu sou tua amante. _Você nunca diz que me ama. _Você também não. _Par. _ímpar. _Ganhei. _Droga. _Aqui ou lá em casa?
Escrito por Renata Calmon às 03h36
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"Do que não se pode falar, deve-se calar" Wittgenstein
Escrito por Renata Calmon às 14h51
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As palavras continuam fugindo desconexas dos meus dedos. Atos impensados dos meus braços. Descargas elétricas de amoródio. São nessas horas, essas horas sem fundo. Que eu me apago, me reescrevo, desfaço o sentido da palavra suja. Não corro mais o risco que me vejam nua, cantando para os lobos num arranha-céu.
Escrito por Renata Calmon às 12h38
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Desclassificados
Procura-se homem albino, anão, 97kg, 20 anos, casado, filhas siamesas, formado em Teologia, campeão de pólo aquático, nascido no Jalapão, portador de Hepatite B, defensor dos micos leões dourados, fluente em Grego, leitor da obra de Paulo Coelho e Baruch Espinoza, Canceriano, Ascendente em Sagitário, Lua em Touro, macaco no horóscopo chinês, que prefira os homens, para relacionamento sério.
Escrito por Renata Calmon às 20h13
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Depois que seus beijos morreram
Eu lavei as roupas de manhã, como faço toda quarta-feira. Fumei um cigarro depois e acordei o Rafael para ir ao trabalho. Eu estava buscando um gosto estranho, uma olheira, uma lágrima, mas nada era novo. Telefonei para a Marília para combinar de irmos juntas ao velório e ela tinha uma voz de catarro. Tudo certo. Abri o jornal. Ele estava lá. Não merecia uma página inteira. Não de mentiras. Não quis ler tudo. Eu já quase não me lembrava dos beijos. Esforçava-me para reconstituir uma viagem que fizemos uma vez pra uma cidadezinha no interior de São Paulo. Acho que começava com “I”. Ele ainda não tinha o olhar morto. O olhar às vezes morre antes do corpo. Existia alguma coisa parecida com amor. Uma sala cheia. Gente desconhecida. Velha. Velha como eu. Gente talvez que nunca tenha visto ele antes. Não gosto de fotógrafos. Gosto menos ainda dos políticos. Eles estavam por todos os cantos distribuindo apertos de mão. Não te conheço, não aperto a sua mão. A Marília não parava de chorar. Lembra daquele cara que ele denunciou? Foi torturado, morto. Segura o choro, porra. Faz tanto tempo... Simone. O nome da mulher dele. Viúva, sei lá. De frente para o frango assado. Parecia um jantar. Eu estava sem apetite, mas tinha ido até lá. Empurrei impaciente algumas pessoas e me dirigi ao caixão. Ela me olhou primeiro. Balancei a cabeça. Não poderia fazer mais do que isso. Ela sorriu para mim. Não gostei. Não gostei nada. Desviei o olhar. Com licença. Terno e gravata. Ele não poderia morrer um pouco mais à vontade? Deus me livre apertar o pescoço do meu marido com uma gravata para a eternidade! E aqueles algodões no nariz. Será que é porque escorre alguma caquinha post-mortem? Ele tinha envelhecido bastante. Dez anos desde o último esbarrão, mas parecia o dobro. Talvez eu tenha ficado ali por uns quinze minutos ou mais esperando que fosse catalepsia ou alguma outra merda fantástica que costumo ler nesses best-sellers idiotas. Ou então eu estava simplesmente tentando sentir alguma coisa. Olhos bem abertos por minutos para forçar as lágrimas. Quando eu saí de lá, me dei conta que tinha ido ao enterro errado. O homem que havia amado tinha morrido há muito tempo atrás. Tantos anos. Eu tinha as fotos em alguma gaveta. Procurei. Ele era lindo. Falava as palavras mais doces. Acreditava na vida. Jamais seria capaz de matar alguém. Como chorei.
Escrito por Renata Calmon às 16h26
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Mosquitos no Inverno
Moço, sai da minha frente que eu quero passar. Eu luto karatê desde os sete. Então não fica me falando sobre as rosas, nem sobre o azul do céu e muito menos sobre os filhos que você quer ter comigo. Eu nunca vou casar e um dia eu li uma história que os lobos comeram o meu útero. Olha aqui (e eu ponho o meu dedinho pequenininho no narigão dele), se você fizer a louca para cima de mim, eu finjo que você não existe e você vai derreter aos poucos até que ninguém mais te enxergue. A minha bicicleta tem duas rodas bem mais velozes que essas tuas pernas tortas. Tira a mão da minha cintura. Pára de falar de Deus. Minha família é comunista e agnóstica. Eu adoro essa palavra: agnóstica. Eu explodi tudo e matei milhões. Os botões vão ficar no lugar da costura. Minha mãe me deu o vestido. Liberdade de fazer o que eu quiser, com quem eu quiser, jaburu.... Você não entendeu nada. Esse ano as borboletas não vieram no inverno. Mas eu juro que já as vi. Engraçado, não ter medo sempre me pareceu uma arma. Não aponta isso para mim. A calcinha não é rendada, ela é grande, de menina. Vovó, os seus olhos, nariz, boca, pau... tudo tão grande. Eu adoro a minha bicicleta. Ela é amarela. Amarelinha, mas os carros brigam. Não gosto de parques. Parques fedem a pessoas fazendo cooper, a picnics, a casais em cima de toalhas, a homens se masturbando observando os casais em cima das toalhas, a passarinhos. Vovó você está tão pesada, e sua voz é tão estranha. Filho-da-puta, eu te chuto, eu te mato, sai de cima. Eu gosto de colocar fogo nas coisas. Eu queimei o Cultura Artística quando estava voltando da escola. Mas... ele amarrou meu fogo na cama. Baba de caramujo. Baba de caramujo não sai e tem que esfregar com Bombril. Queima a carta perfumada que você escreveu para o menino. Agora você tem cheiro de homem. Talvez as borboletas ainda voltem no verão. Ou será que serão mosquitos?
Escrito por Renata Calmon às 17h06
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