Quando a Lua Cantou Azul
Uma voz como a dela, ressoa eternamente na memória. Lua, talvez Luana, brilhou em um palco podre de madeira do "Darling". Fui parar lá em uma dessas noites em que não consegui voltar para casa, ver a mulher, brincar com os filhos. Na volta do trabalho, deixei que o carro me conduzisse para um canto escuro e desconhecido da cidade. Uma ruela de nome sugestivo - algo como Rua das Graças - e suficientemente distante do que eu podia chamar de lar. Na entrada do bar, em néon, o desenho de uma mulher de curvas generosas e peitos para fora. "Não é má idéia comer uma puta hoje", pensei. Dei dez mangos para o gorila da porta que disse-me num sorriso largo sem alguns dentes: "Aproveita, que aqui a parada é quente!" E como eu precisava de calor!... Calor sujo, com gosto de bebida e sexo. Entrei meio afoito. Fazia tempo que não me aventurava em um lugar desses. Consegui a última mesinha vazia. À minha volta, vários machos ansiando pela abertura da cortininha vermelha a nossa frente. Algumas putas desfilavam de mini shorts e salto alto pelo salão. Uma delas - uma loira tingida quase bonita - parou perto de mim. Fez menção de sentar-se comigo. Recusei delicadamente. Ela me deu as costas meio emburrada fazendo "puuuuuuf..." Bom, não era assim uma princesa e a verdade é que eu queria primeiro ver o tal show de strip-tease. Pedi uma dose de uísque sem gelo e tomei de uma vez. O álcool subiu fazendo festa e aumentando meu tesão. Pedi uma garrafa. Foi nessa hora que a música melosa interrompeu-se de súbito. Uma voz anunciou: "Atenção senhores, com vocês a nova menina da casa - LUUUUUUUUUA." A cortina abriu desajeitada e uma figura esguia de longos cabelos encaracolados pretos apareceu na sombra ao fundo do palco. Ela trajava um vestido azul bem colado no corpo até os joelhos que revelava um imenso traseiro - bela composição com sua fina cintura. Ela caminhava vagarosamente em direção ao proscênio, onde havia um microfone. Seus passos pintavam o surpreendente silêncio daquela sala repleta de testosterona. Quando seu rosto alcançou a luz do refletor, minha boca entreabriu-se com a beleza delicada dos seus traços. Uma morena de grossas sobrancelhas, olhos pequeninos e negros como duas jabuticabas e uma boquinha esculpida pelo vermelho do batom, surgiu com o cenho fechado, olhando para além do público. "Uma música que gosto." , disse quase infantil. Ela fechou os olhos e uma voz redonda e aveludada saiu de sua boca mel cantando a música mais bela e inadequada para um lugar como aquele: "Some day he'll come along, the man I love; And he'll be big and strong, the man I love; And when he comes my way, I'll do my best to make him stay. He'll look at me and smile..." O seu corpo não se movia, ela estava em transe com a imagem daquele homem-promessa que iria amá-la. No meio do meu encantamento, um porco gordo e velho gritou impaciente: "Tira a roupa logo, caralho." Ela continuou sua melodia, inalterada. Um outro grito violento rasgou sua canção: "Que porra de música é essa?" Ela disse solene: "Não sou puta, sou cantora." Vaias por todos os lados. O homem que a havia anunciado subiu ao palco e a arrastou para fora pelos cabelos. Uma música barulhenta preencheu o vazio do palco. Não pensei um segundo antes de levantar-me em um pulo e correr em direção ao palco para buscá-la. Estava certo de que eu era o o homem para o qual ela cantava. O segurança me impediu. Tentei explicar que era seu amigo de longa data, que queria ajudá-la... Nada feito. Saí do bar para procurá-la e lá estava ela, sentada na sarjeta, cabelos desgrenhados e com um choro manso escorrendo pelo desenho do seu rosto. _Gostei da música. _Você foi o único. _Posso te levar para algum lugar? _Eu não sou puta. _Eu sei disso. Vamos tomar um café? Cruzamos a rua e entramos em um boteco. _O seu nome, Lua, vem de Luana? _Pode ser. Eu pedi uma cachaça. Ela comeu um sanduíche e tomou um copo de leite. _Eu tive vergonha de tirar a roupa. _Eu imagino, mas esqueça isso agora. _Não tenho onde passar a noite. Eles não me pagaram. _Te levo para um lugar que conheço. _Não sou puta. _Eu sei, você já disse isso. Entramos em um motel bacana que fica em uma rodovia, aqueles com hidromassagem, cama larga, espelhos por todos os lados, lençois finos. _Lugar de rico esse. _Nem tanto... Olha, você pode passar a noite aqui. Eu vou embora. Será que você poderia me dar pelo menos seu número de telefone ou me dizer onde posso vê-la novamente? Ela pulou nos meus braços e me apertou com firmeza esfregando sua testa no meu peito. _Você é tão... Não continuou a frase. Sua boca juntou-se a minha em um beijo molhado. Eu a carreguei para cama como se faz com uma mulher na noite de núpcias, o sexo de um adolescente controlando a excitação aguda por baixo da roupa. Desvencilhei-me do seu corpo antes que a vontade de despí-la fosse maior que o meu cavalheirismo: "ela não era puta." _Cante para mim. _When the mellow moon begins to beam, ev'ry night I dream a little dream; And of course Prince Charming is the theme: the he, for me. Although I realize as well as you, It is seldom that a dream comes true, to me it's clear that he'll appear... Eu a abracei, fechei os olhos e me entreguei adormecido ao doce que me invadia os ouvidos. Pela manhã, meu braço buscou seu corpo azul ao lado e encontrou um travesseiro. Levantei assustado. Vesti a roupa rapidamente e corri até a recepção. _A menina que estava comigo, uma morena de vestido azul, ela já... _Foi embora, senhor. _Quando? _Ainda de madrugada. Virei as costas e comecei a caminhar em direção à saída. _Senhor? _Sim. _Você excedeu o período de 12 horas, tem que pagar o restante do dinheiro. Suspirei, abri a carteira e acho que gritei. Aliás, gritei mesmo, um gritinho quase feminino ao me deparar com a carteira completamente vazia. Os cartões e documentos ainda lá, mas 200 reais em espécie que viraram pó. _Pode passar no cartão. _Claro, senhor. Eu ainda a procurei no bar aquela noite. Tinha sido despedida. Restou-me apenas a lembrança viva de uma encantadora fêmea chamada Lua, Luana, talvez Iara.
Escrito por Clotilde e cia às 15h24
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