Clotildianas


O Imperador Branco

 

 

Mesmo com a farinha grudada no nariz o pau estava inquieto. Aquela janela escancarada chamava-o num grito. A última gozada. A esporrada magistral. Não há de ser com puta, não. Quero é gozar na cabeça dos passantes. Foi assim num pulo de gato com uma garrafa na mão e o telefone sem fio na outra que ele ligou para o disk-sexo da beirada do mundo. O vento da madrugada arrepiando os pentelhos já descobertos. Uma voz doce de putinha loira atendeu:

 

 

_Boa noite.

 

_Boa noite o caralho.

 

_Ui, como você é grosso. Adoro.

 

_Escuta aqui minha filha, lá embaixo... muitos metros. Quando eu cair não vai sobrar noite nenhuma.

 

_Ahn?

 

_14 andares, pra ser mais preciso. Será que as formigas flutuam?

 

_Desculpa, gato. Não tô sacando o seu jogo.

 

_Imbecil, eu tô pagando, você não tem que sacar nada. Eu quero só que você fale aquilo que eu preciso. Vai morrer comigo.

 

_O se.. senhor não está pensando em...

 

_Voilá. É nisso mesmo que estou pensando, no cheiro da sua buceta. Ela fede? Adoro buceta com cheiro de comida estragada.

 

_Senhor, eu tenho aqui o telefone do CVV. Se você não está se sentindo muito legal...

 

_CVV de cu é rola, eu quero gozar no ar. Agora me diz, como você é?

 

_Hummm. Tá. Loira, alta, 18 aninhos, olhos verdes, peitos grandes bem gostosos, bundão, cintura fina...

 

_Não, como você realmente é.

 

_Assim.

 

_Caralho, não vai regular o meu último desejo, né, piranha?

 

_Gordinha, cabelos crespos, óculos fundo de garrafa. Satisfeito?

 

_Boa menina. E o seu nome?

 

_Valquíria.

 

_Hahaha, tá bom.

 

_Solange.

 

_Sol da minha noite.

 

_Que fofo!

 

_Brega pra caralho. Sempre fui um poeta medíocre.

 

_Relaxa, gato, você só tá um pouco pra baixo.

 

_É a porra da coca.

 

_Você também é um pouco mal-educado, mas deve ter lá suas coisas bacanas, né?

 

_Ah, você quer que eu me jogue mais rápido, é isso?

 

_Não, mas se quer mesmo se jogar, não entendo porque fica desperdiçando a porra do meu tempo com esse papinho cretino, seu babaca.

 

_...

 

_E aí, vai querer bater uma, ou não?

 

_Acho que... passou a vontade.

 

_Ótimo, que já estou no final do expediente.

 

_Sabia que antes de me atirar eu posso ligar pro seu supervisor e fazer uma reclamação, sua vaca?

 

_Então aproveita pra dar o cu pra ele também que o meu ele adora.

 

_Você sabe quem eu sou?

 

_O quarto maníaco-depressivo da noite.

 

_Filha-da-puta.

 

_Boa queda, senhor.

 

 

Frio de gelar os ossos aquele “tu-tu-tu-tu” do telefone. Jogou o aparelho lá embaixo. Alguns segundos apenas para se espatifar completamente contra o concreto. Sua cama parecia mais macia.

 

 



Escrito por Clotilde e cia às 20h41
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Encolher palavras quando o vazio é generoso.



Escrito por Clotilde e cia às 12h47
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