A MULHER QUE PASSA
Uma página nua cheia de possíveis curvas. Eu a via passando por volta das quatro da tarde na frente do Astor, os cabelos castanhos e lisos longos quase até a cintura, o figurino branco acompanhado por uns óculos de sol enormes e marrons (mesmo na chuva) e o all star preto em ritmo compassado sempre atrasado para não sei onde. Eu a chamava de Rita e nos dez segundos diários que de passagem eu a via (eu ficava bem na frente do bar arrumando as florzinhas artificiais), tecia as histórias do nosso primeiro encontro. Talvez um pequeno esbarrão quando eu abrisse a porta seguido de um: “perdão / não tem problema / se machucou? / não”, enquanto minha mão alisasse seu ombro e os nossos olhares já enlaçados. Ou então, despretensiosamente, num supermercado, na seção de legumes e vegetais, mais precisamente escolhendo berinjelas, que nós dois amamos. Ou ainda (e não custa ser um pouco romântico), salvando-a de uma situação de risco: eu estou fechando o bar à noite e ela passa do outro lado da calçada. Noto que um sujeito corre em sua direção. Cruzo a rua. Ele tenta agarrar sua bolsa. Eu o empurro. Ele vai embora assustado. Ela me agradece, olhos de adrenalina. Me dá um beijo na bochecha. Eu sinto pela primeira vez a maciez do seu rosto, tudo aquilo que eu havia escrito. Dez segundos apenas de Rita enchem tantos guardanapos. Os versos que eu nunca tive talento pra fazer. Passam por todos os clichês e forçam rimas, mas ainda assim, eu os releio com o todo o cuidado e enfio cada papelzinho no bolso da calça jeans para guardá-los posteriormente com os outros em casa. O personagem Rita (moça-sempre-de-branco-dos-óculos-nunca-pára), gosto de pensá-la fisioterapeuta. Atende uma senhora judia há umas cinco quadras de onde trabalho que sofre de má circulação devido à diabete. Ela escuta pacientemente a senhorinha que discorre sobre as manias novas do marido que sofrera recentemente um AVC. Adoro mulheres que me ouvem. Sou chato e rabugento. Quando envelhecer ficarei terrivelmente ranzinza. Além de fisioterapeuta, quero que Rita estude história da arte às quartas-feiras. Simplicidade mesclada a uma certa vontade de conhecer o mundo, viajar. Eu, por exemplo, sonho em conhecer a França. Não falo mais que “oui”, mas vez ou outra assisto a um daqueles filmes melancólicos franceses e me debulho em lágrimas. Nada mal nós dois no Musée d’Orsay de mãos dadas. Não, ela não é fã de arte contemporânea. Tudo bem, eu também não entendo muito. Dentro da mochila, além do material de trabalho, ela carrega um livro. Gosta especialmente de romances policiais. É uma moça de Best-sellers, hábito que me fará torcer o nariz depois de uns quantos meses e lhe apresentar os livros de Leblanc. Ela vai adorar. Rita domina o meu vazio. Porém, quando o buraco fica muito fundo ou o tesão muito grande, permito-me umas escapadelas. Uma mocinha, mais precisamente uma garçonete recém contratada do Astor, foi dormir lá em casa. Faço questão de não levar as mulheres para o meu espaço. Nada mais insuportável do que dormir/acordar com um corpo estranho/incômodo ao meu lado. Detesto. Quase fobia. Dessa vez foi inevitável. Ela foi bem insistente e era ajeitadinha. Me chupou dentro do banheiro no final do expediente e disse “pra onde vamos?”. Resposta bate-pronto: pro motel. Aí ela veio cheia de “nãos”, que motel não é lugar decente, não se sentiria confortável, que sabia que eu morava sozinho e por perto etc e tal. Fomos. Não sem antes passar num bar fim de linha e tomar algumas cervejas. Depois da trepada nada mal, da minha insônia terrível esperando que ela fosse embora (sou minimamente educado), lá pelas onze horas da manhã dei um leve chute na sua canela para que ela acordasse. Ela sorriu cheia de beijinhos. Eu falei que tinha alguns compromissos e precisaria sair em breve. Fui pra cozinha. Cinco minutos depois, ela veio seminua, olhinhos entretidos, com um papelzinho rabiscado na mão. Um dos meus poemas. Disse que achara no chão. Tinha lido. Achara lindo. Alguma coisa bem estúpida sobre a aceleração dos batimentos cardíacos numa queda livre e rever a mulher amada. Senti-me ofendido. Arranquei o papel da sua mão enquanto ela divagava sobre o meu talento de escritor, se eu tinha outros como aquele, que ela também sentira uma conexão especial entre a gente... e nessa hora, eu segurava a chaleira quente e por pouco não lhe enfiei na cabeça. Sempre soube que eu não era um arquiteto de palavras, mas nesse dia eu descobri que não só meus versos eram fracos, como serviam apenas para o meu único e exclusivo prazer. Nunca quis que eles fossem lidos. Nem mesmo pela pessoa para a qual eles eram escritos. Esperei os dez segundos de Rita, ou quem quer que ela fosse, passar por mim naquele dia em branco. Arrumei as florzinhas artificiais das mesas da calçada. Arriscaria um contato? Uma palavra? Palavra viva. Som carne osso dentes. 16:17. Vi no meu relógio. Ela vem descendo. O mesmo traje branco no seu rebolado rápido. Nunca vi seus olhos. Não sei de que cor são. Ela se aproxima furacão a cada passo. Sei que se não for agora não será nunca. Porque essa mulher não se chama Rita, talvez ela seja dentista, goste de samba rock, tenha mania de palitar os dentes depois de comer, vai saber... Quando termino um verso, eu gozo. Palavra de punheteiro. A mão vem e vai no seu ritmo. Nada de acrobacias, complicações ou riscos. Gozo raso. Essa mulher se chama Desconhecido.
Escrito por Clotilde e cia às 20h49
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