Clotildianas


Pisca-pisca

 Quando o dono da banca viu o pisca-pisca. Tem cara de estória nonsense. Você diria até que a escritora dela tomou um doce. Não é verdade, já lhes adianto. Pensemos que é um sábado com cara de domingo: pós-expectativas frustradas. Nesse sábado chuvoso, em que a escritora está insone, o dono da banca viu o quadradinho redondo fosforescente a quase 3m dali, na calçada. “Piscando assim, deve estar com pilha boa”. Aliás, a bateria do meu laptop já está acabando e aquela preguiça de levantar a bunda. Escrevo deitada. Torcicolo, braço direito formigando e tal. Pescoço em “L”. Ao meu lado um silêncio terrível e uma vontade de pular toda a tarde. Para os vampiros, a noite é pára-raios de sonhos. Ele vai até o objeto, agacha-se e o examina. Um parágrafo e já tantas voltas. Ele procura algo de extraordinário no pisca-pisca. Precisa encontrar o meu mote. Convenhamos que só mesmo se uma bomba ali estivesse ou talvez uma mensagem criptografada conseguiríamos continuar a falar do moço da banca. Não gosto de ficção científica. O moço da banca tem sete filhos. Nenhum deles é muito interessante. Talvez um seja traficante e esteja agora preso, mas não vejo conexão com o pisca-pisca. E nós temos que falar sobre o pisca-pisca. Está lá piscando, e não fizemos ainda nada com ele. Bola dividida com uma semana do cão, o chefe falando “não sei não, não sei não”; bolsos vazios; tempestade; internet sem sinal; lâmpada queimada no banheiro... tudo mentira quando o problema maior reside em um homem, quase um cachorro. O pisca-pisca tinha um adesivinho roxo onde se lia: “aqui”. Muito absurdo. Digamos que seja um pisca-pisca de bicicleta que tenha dela caído. O adesivo alguém colou ali porque queria se livrar dele e como o pisca-pisca chama muita atenção... Sabemos todos que essa é uma péssima explicação, mas nesse momento já estamos íntimos. Posso até lhes contar uma segunda estória. Um momento: não gosto de mulherzinhas, draminhas, autobiografiazinhas e meu chazinho com açúcar. Dito isso, podemos abrir minha janela.

 

Daqui, desse retângulo, lá embaixo, uma banca. A Augusta vadia dorme ou frita. Pela calçada os últimos malucos: óculos enormes, chapéus esquisitos, roupas-néon. Ele está em um apartamento no primeiro andar do prédio baixo marrom ponto de putas quase em frente ao meu. Não vamos mais discutir o quanto tentei que essa não fosse mais uma estória sobre ele. Olhos arregalados. Meu pequeno poder de decidir o que ele pensa. As paredes pintadas de ocre (ele ainda conserva aquela jaqueta manchada) já estão cheias de bolhas. O lençol rasgado, porque o meu está sujo. É claro que ele está acordado, isso não está em pauta. Abraça o travesseiro com as pernas como se fossem as minhas. Dizer que ele se arrepende seria naïf. Então eu escrevo que ele sente muito por não estar aqui e fazer um possível momento virar letra. Estende o braço até a escrivaninha. Lá já esteve um livro meu. Lia para ele trechos bem piegas. Tenho dessas coisas às vezes.O maço de cigarros está vazio, o que para ele, a essa hora – dentes amarelados – é o equivalente a saber que está com câncer. Pula - faz secretamente seus movimentos ninjas. Põe a calça/ camisa do dia anterior. Rapidamente sai.

 

Daqui, desse retângulo, eu o vejo. Vai atravessar a rua. Olha só para um lado. Típico. Pára na linha amarela, bem no meio da rua, carros descendo. Passa um. Vai correndinho, do seu jeito obcecado – cigarros! Antes de contornar a banca, aos seus pés, um pisca-pisca. Ele se agacha. Examina-o com atenção. Há nele um adesivo roxo, onde está escrito: “aqui”. Enquanto isso, eu daqui de cima preparo um vaso de flores, azaléias como aquelas. Miro-o bem na sua cabeça. Presente literário adiantado do dia dos namorados, meu amor.



Escrito por Clotilde e cia às 16h07
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Na última gaveta do móvel azul do quarto

 

 

Sim, essa também é a estória do cigarro. Do último beijo dado no meu rosto acompanhado de um longo abraço incômodo, apertado demais, braços sufocantes de polvo. Do seu olhar marejado, sua tentativa de sorriso, quase alcançando a pintinha do lado direito do lábio e da frase clichê dita de forma solene: “Vou à banca comprar um maço e já volto”. Fumava Carlton vermelho. Não entendo até hoje como alguém pode fumar Carlton. Acho de péssimo gosto. Lembro-me que assim que ele bateu a porta, caí pesada no sofá e liguei a TV. Ainda falavam da morte do Ayrton Senna. Eu já não agüentava mais ouvir falar dele. Meu pai acompanhava as corridas. Não chorou, mas se chorasse, pelo Ayrton ele teria. Repetia incessantemente no dia fatídico: que tragédia, que tragédia, que tragédia... enquanto minha mãe lixava as unhas bufando de tédio. Eu zapeava preguiçosa a TV e por um segundo - depois isso veio raio na memória – por um segundo, a dúvida-imagem de uma mala preta, coisa muito rara. Outro canal. Algum desenho animado. Tom com a cabeça presa numa ratoeira enquanto Jerry gargalhava.

 

Não o ver virou rotina, como tomar banho e ir para a escola ou ouvir a ladainha da minha mãe sobre a mulher moderna e independente que invariavelmente acabava em lágrimas. Palavras sobre ele eram esparsas e, para mim, proibidas. Pescava conversas de vizinhas sobre o Rogério, o tal Roger, que tinha ido com outra, aquela costureira morena bonita. Vizinhas gostam de tricotar. Mesmo assim, rasguei propositalmente a manga de uma camiseta e cheguei com olhinhos inocentes para minha mãe: “ó, rasgou; você conhece alguma costureira?” Peguei um castigo bravo, duas semanas sem gibizinhos, televisão e sorvete, o que realmente era uma sacanagem. Assim findou minha vontade de investigar as tais linhas soltas.

 

Eu comecei a ler “Robson Crusoé” debaixo da mesa da sala de estar, onde tinha mania de brincar com os pés dele. Imaginei que as pernas da mesa demarcavam a minha ilha. Minha mãe não descobriu os riscos que eu cavava na madeira a cada dia como os náufragos. Uma sorte. Levava lá para baixo objetos que eu gostava. Um por vez, para que eles se sentissem especiais. Às vezes ela me carregava dali para cama, o que eu acho que causou sua hérnia de disco. Não sei se ela viu a foto que eu colei dele no tampo da mesa, no fundo. Eu estava no seu colo, num parque perto de casa. Ele usava sua camisa xadrez que minha mãe adora e até hoje guarda e eu tinha cara de quem fez cocô - isso disse minha tia Vera. Só parei de freqüentar a ilha, quando descobri o prazer de me masturbar no chuveirinho. Passava horas no banheiro. Uma obsessão pela outra, mas acho que minha mãe ficou mais aliviada.

 

Quando ela me ligou pedindo que eu fosse ao necrotério, pensei em recusar: temia não reconhecê-lo. Enquanto dirigia – juro que minhas mãos não tremiam e nenhuma lágrima nem com lupa você veria – tentava reconstruir o seu rosto, mas como ele era parecido com o Roberto Carlos, a imagem do rei se sobrepunha à do meu pai. No caminho, passei na casa da minha mãe para pegar um álbum de fotos. Sim, tive que lhe dizer meia dúzia de palavras de consolo enquanto ela estrebuchava no tapete felpudo do quarto e eu observava que sua blusa rosada já estava cheia de pêlos brancos o que me irritava ainda mais que do que seu choro agudo. Finalmente me desvencilhei dela para mergulhar nas imagens daquilo que um dia ele havia sido. Coloquei o álbum no banco do passageiro e o ia folheando, dividindo a minha atenção com o trânsito. Ele sempre sorria. Farol vermelho. Sempre tão sereno. Abriu. Seus gestos parecem tão carinhosos. Poderíamos fazer um comercial de margarina com essa foto aqui. Sentido centro. Talvez ele esteja gordo e careca. A costureira decerto não o quis no final, não se deu nem ao trabalho de reconhecer a porra do corpo. Ou talvez tenha sido só uma aventura. Coisa de um mês e aí ele não teve coragem de voltar para casa. Talvez nos visitasse secretamente. Tivesse um apartamento no edifício em frente e nos espiasse com o binóculo. Droga, perdi a saída, agora vou ter que dar uma volta enorme. Essa foto em Ubatuba... meu pai nem gostava de praia. Aliás, odiava. Não suportava areia. Ainda assim, aqui parecemos duas lagartixas contentes tomando Sol. Meu ex-namorado parece com ele. Credo! Ele era um homem bonito. Uma pena que mal o conheci. Dizem as fotos que era meu pai, que era feliz. É por isso que eu não tenho máquina fotográfica. Acho que é aqui o retorno.



Escrito por Clotilde e cia às 21h44
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